Inclusão digital: Necessária ou supérflua?
O Brasil é um país com 73 milhões de internautas, segundo o Ibope. Ao mesmo tempo, de acordo com um ranking publicado pela consultoria Economist Intelligence Unit, que avalia o uso de tecnologias de informação e a internet para maximizar benefícios econômicos e sociais, o Brasil não avançou nos últimos dois anos, mantendo-se na 42ª posição. Para discutir este tema, convidamos o jornalista e mestre em comunicação, Jupy Junior, e o professor de Marketing Digital, Gustavo Loureiro. Confira abaixo a entrevista:
É possível falar em inclusão digital em um país como o Brasil, onde os índices sociais são baixos?
Gustavo: Claro que existem coisas mais importantes para serem resolvidas no país. Mas, sem dúvida, a inclusão digital pode ser usada como uma ação motivadora para acabar com o analfabetismo e a fome no Brasil. Além disso, um bom projeto de inclusão digital pode ajudar muito na geração de novos empregos.
Jupy: Estou convicto de que a inclusão digital ainda precisa ser debatida, porque é bastante comum confundir fornecimento de computadores com acesso à internet com inclusão digital. Não se discute o que fazer com os “incluídos”. A maioria das pessoas não está preparada para avaliar o conteúdo oferecido pela internet. Quando são incluídos, usam a internet como ferramenta de diversão, como uma alternativa à mídia. Talvez seja a hora de pensar em criar pessoas mais conscientes sobre a sociedade em geral, antes de colocá-las na frente do computador. O Brasil vive uma indigência educacional, muita gente não lê sequer um livro por ano. Acho inusitada a preocupação com inclusão digital, que afinal de contas, é para os poucos que podem avaliar conteúdo e fazer bom uso da tecnologia.
De acordo com o Manifesto Cluetrain, com a chegada da internet, “uma poderosa conversação global começou. Através da internet, pessoas estão descobrindo e inventando novas maneiras de compartilhar rapidamente conhecimento relevante”. Como a internet e a inclusão digital afetaram as relações sociais? As pessoas estão mais próximas ou mais distantes?
Gustavo: Antes só era possível socializar com amigos em um cinema, teatro ou bar. Hoje você pode fazer isso em sua rede social na internet. Você pode ficar horas batendo papo com os seus amigos “reais” e alguns desconhecidos presencialmente e isso não incomoda mais os mais jovens. Algumas pessoas ainda sentem falta de um encontro presencial, mas para os jovens é super natural hoje ficar no computador trocando horas de papo. O fato de as crianças e jovens ainda estarem em escolas presenciais e profissionais em faculdades e cursos de especialização evita que um distanciamento maior ocorra. O dia em que o ensino a distância tomar mais força, as pessoas se relacionarão cada vez menos de forma presencial – o que pode gerar um grande crise de identidade, já que na internet muitos usuários se comportam de forma diferente.
Jupy: Depende do que se considera “próximo ou distante”. Há hoje em dia, como disse Dominque Wolton: as “solidões interativas”. A pessoa acessa a internet o tempo inteiro, mas não se relaciona com seu vizinho de apartamento. A troca social só é válida ao vivo e a cores? É um caso a pensar, mas ainda acho que nada substitui o olho no olho. As pessoas, na minha visão, estão mais acessíveis graças à intermediação pelas máquinas, mas estão cada vez mais distantes, porque cada vez se entendem menos. Quanto à citação, não acredito que há grande quantidade de “conhecimento relevante” na internet, e se há, não sabemos encontrá-lo de forma rápida e segura (legítima). Colocar as pessoas em contato umas com as outras não é garantia de troca ou de compreensão. A internet e a inclusão digital têm afetado profundamente as relações sociais porque a tecnologia se tornou um bem irrevogável nas grandes sociedades urbanas. É mais um fator de distinção social, quem sabe operar o computador faz parte do jogo do mercado, do trabalho, da diversão. Da maneira como tem sido vendida, a tecnologia parece ser um bem em si, quando na verdade é o mercado que tem ditado as regras da vida social, e a tecnologia é uma das suas ferramentas mais importantes.
A inclusão digital pode ser uma forma de agregar aprendizado nas escolas e universidades? Ou apenas estimula os alunos a realizar o famoso “copiar e colar”? É possível utilizar a internet de uma forma inteligente, que incentive os alunos a pensarem de verdade?
Gustavo: Acho que para afirmar precisaria de uma pesquisa, mas a grande maioria usa somente para copiar e colar. Para evitar isso, acho que as pesquisas e trabalhos na internet deveriam ser feitos em conjunto com uma apresentação oral. Isso sim evitaria um copiar e colar sem aprendizado.
Jupy: Há uma crise na educação. O aluno não se sente mais motivado e tudo o que ele não quer é ir para a escola. A tendência à dispersão é um fator gravíssimo hoje em dia, e tem uma relação direta com a cultura midiática e os valores sociais deturpados. A inclusão digital oferece mais um instrumento que possibilita isso. O aluno se pergunta: “se posso consultar o Google, vou estudar para que?”. O grande desafio é revolucionar o ensino, mostrar que educação tem a ver com uma vida melhor, tem a ver com valores humanos. A educação deve servir para mostrar o que é o mundo, formar pessoas, e não adestrar trabalhadores. As escolas e universidades precisam urgentemente criar uma política de uso das novas tecnologias de modo a orientar os alunos quanto à sua real utilidade.
O número de pessoas com acesso à internet em qualquer ambiente atingiu 73,9 milhões no quarto trimestre de 2010, segundo o Ibope. Como as marcas estão reagindo a esse fenômeno? Elas estão sabendo aproveitar esse cenário?
Gustavo Loureiro: Olhar os 73 milhões significa entender que em um país com mais de 180 milhões de habitantes ainda existem aproximadamente 110 milhões de fora. Com isso, existe sim muita oportunidade para quem deseja trabalhar de alguma forma com internet. Por outro lado, as empresas muitas vezes conhecendo seu público-alvo, não desenvolvem um trabalho na internet justamente por reconhecer que seu público ainda não tem presença forte na rede.
Jupy Junior: Sei que hoje em dia é praticamente uma obrigação estar presente no ciberespaço. Imagino que as empresas têm aproveitado os novos canais estabelecidos com consumidores e com clientes em potencial. Quanto a aproveitar, imagino que a pergunta se refira à conquista de novos clientes. Acredito que sim, uma vez que a popularização das novas tecnologias atingiu todas as camadas sociais.
Os participantes:
Jupy Junior: jornalista, mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, leciona no curso preparatório para concursos públicos Radix e no Instituto Infnet, com disciplinas relativas às discussões sobre novas tecnologias. Publicou “Chats – comunicação e sociedade”, na qual correlaciona o fenômeno dos bate-papos na internet com os padrões culturais sobre o amor em vigor na sociedade. Considera-se um “tecno-humanista”, por buscar um equilíbrio nas relações humanas por meio da tecnologia, e não por causa dela.
Gustavo Loureiro: professor do Curso de Especialização (lato sensu) em Marketing Digital do Instituto Infnet e também é professor da cadeira de e-Commercee no Curso de Especialização (lato sensu) em Marketing e Design Digital da ESPM. Atuou com planejamento de mídia e SEM para anunciantes como Mercatto, ClubMed, Casa&Vídeo, Plugme e Michelin/BFG e para agências como Hi-Midia, Selulloid AG, Ability e Publicidade Interativa. É membro da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (ABCiber) e recebeu o Prêmio Peixe Grande pela Revista WebDesign em 2005, faz parte da diretoria da ABRADi-RJ e possui especialização lato sensu em Comércio Eletrônico e Marketing pela FGV.

